O tratamento da documentação
Desde que chegam à Biblioteca da escola e até que são
disponibilizados aos alunos, os livros/documentos deverão sempre ser
submetidos a operações específicas. Essas operações, por mais que
se quisesse simplificá-las ou suprimi-las, terão de ser realizadas, sob
pena de os livros/documentos ficarem arrumados nas prateleiras e não
terem qualquer utilidade para quem os queira consultar.
O tratamento dos documentos consiste num conjunto de
operações técnicas que irão permitir a sua colocação em estantes
para uma posterior localização e fácil identificação pelos seus
utilizadores. Ele comporta um percurso que o livro segue, desde que
entra na Biblioteca até que é colocado numa estante e requisitado pelo
seu utilizador.
Essa tarefa exige conhecimentos e experiência e, nem sempre
agradável de fazer. No entanto, é indispensável para que a Biblioteca
funcione e cumpra os objectivos para que foi instituída.
O “percurso” dos documentos
O tratamento de documentos na Biblioteca Escolar integra a
realização de operações como: carimbagem, registo, classificação,
catalogação, cotação e etiquetagem dos mesmos livros/documentos.
1. Carimbagem
Todo o documento que dá entrada no CDI, qualquer que seja a sua
natureza, deve ser carimbado. Deverão existir dois carimbos, de
tamanhos diferentes, para utilização específica :
a) Um carimbo grande que deve conter a sigla da escola (ou
instituição), um espaço para o registo do número de entrada do
documento, e um espaço para a cota (termo a ser explicado
mais adiante). Este carimbo deverá ser colocado na página de
rosto em local bem visível. Sempre que a página seja ilustrada,
o carimbo deverá ser colocado na página imediatamente
anterior ou seguinte, evitando a carimbagem sobre ilustrações.
Exemplo:
b) Um carimbo mais pequeno, apenas com a sigla da escola (ou
instituição), para ser usado na última página do texto e numa ou mais
páginas convencionais, por exemplo, na página 15 ou nas páginas 15,
115, 215, 315, etc… ( isto é, só numa página predefinida, ou a partir
desta, de cem em cem páginas). A primeira página predefinida não
deverá ser muito alta tendo em conta que existem documentos com
poucas páginas.
2. O Registo
Após ser carimbado, todo o documento deve ser registado com uma
numeração sequencial de ordem de entrada.
O registo é uma operação administrativa que tem como objectivo
inventariar todo o tipo de documentos que constituem o fundo
documental de uma Biblioteca.
3. A Classificação
A classificação é um procedimento que consiste em dispor os
documentos obedecendo a uma linguagem de classificação
previamente estabelecida.
Entre nós é a CDU, Classificação Decimal Universal – Tabela de
Autoridade que possibilita que, a partir desse catálogo, os documentos
possam ser facilmente localizáveis nas estantes de uma prateleira da
Biblioteca.
4. A Catalogação
Define-se a catalogação como a operação que consiste na descrição
dos dados bibliográficos associados a um documento (descrição física
deste), num suporte – ficha - com a finalidade de o identificar para
posterior recuperação.
A metodologia a seguir, com base nas Regras Portuguesas de
Catalogação – RPC – pressupõe o seguimento rigoroso dos princípios
e critérios por elas estabelecidos e o conhecimento das Fontes deInformação donde se retiram os elementos de descrição bibliográfica.
A catalogação de um documento é feita uma única vez, dando origem
à chamada ficha de base ou matriz.
5. A Cotação
A cota é o código que facilita a localização dum documento para
além de estabelecer uma ligação entre os dados relativos ao
documento (descritos na ficha bibliográfica) e o documento arrumado
na estante.
6. A Etiquetagem
Tal como o nome indica, é a aposição, no fundo da lombada do
documento, de uma etiqueta que tem de conter a cota respectiva para
arrumação do documento e a sua posterior recuperação nas estantes
da Biblioteca.
7. A Arrumação
Depois de todo o tratamento do documento este deverá ser arrumado
em local próprio, consoante o seu tipo, seguindo um critério temático
de acordo com a indexação e com a organização do espaço físico da
Biblioteca.
Para o documento ser arrumado deve ter tido o tratamento técnico
acima descrito : carimbagem, registo, catalogação, classificação,
indexação e cotação.
Como a atribuição da cota se baseou na notação C.D.U.(Classificação
Universal Decimal – Tabela de Autoridade), os documentos irão,
então, ser arrumados por assuntos.
A CLASSIFICAÇÃO DE DOCUMENTOS
As classificações estruturadas de documentos têm o mérito ( de
grande utilidade para o leitor) de organizarem por conjuntos os
documentos por temas afins e permitir a sua fácil e atempada
recuperação nas estantes a partir de um assunto principal.
Os elementos necessários para a classificação vão variar com o
tipo de documentos em causa – material livro, e não-livro. Tais
elementos deverão ser destacados de onde quer que se encontrem:
dos próprios documentos a classificar (capas, rostos, páginas…), e
acerca dos próprios documentos (enciclopédias, dicionários,
bibliografia diversa…).
Optando-se, assim, por uma Biblioteca de acesso livre, haverá
toda a vantagem em recorrer a um processo de ordenação por
assuntos e matérias, de modo que todas as obras de conteúdos afins
se organizarem umas juntas das outras, permitindo ao utente/leitor
uma maior facilidade na detecção de fontes para a investigação a
realizar.
Uma grande vantagem se torna adoptar na Biblioteca Escolar, a
C.D.U. (Classificação Universal Decimal – Tabela de Autoridade),
porque, além de permitir ao aluno adquirir experiência que lhe vai ser
útil no recurso a outras bibliotecas, este modelo de sistematização
apresenta-se como um processo generalizado, que dá todas as
garantias de sucesso.
O QUE É A CDU?
A Classificação Decimal Universal (CDU) é um esquema
internacional de classificação de documentos.
Baseia-se no conceito de que todo o conhecimento pode ser
dividido em 10 classes principais, e estas podem ser infinitamente
divididas numa hierarquia decimal.
É o esquema de classificação utilizado em grande parte das
bibliotecas, enquadrado numa divisão física por áreas departamentais
(Engenharias Alimentar, Civil, Mecânica e Electrónica) e por áreas
comuns (Informática, Metodologia, Ciências Sociais e Matemática). As
principais divisões da CDU são:
0 – Generalidades. Informação. Organização.
1 – Filosofia. Psicologia. Lógica. Moral.
2 – Religião. Teologia.
3 – Ciências Sociais. Economia. Direito. Política. Assistência
Social. Educação.
4 – Classe que deixou de estar atribuída.
5 – Ciências Puras. Matemática. Ciências Naturais.
6 – Ciências Aplicadas. Medicina. Tecnologia.
7 – Arte. Belas-Artes. Recreação. Diversões. Desportos.
8 – Linguagem. Linguística. Literatura.
9 – Arqueologia. Geografia. Biografia. História.
Os documentos são classificados de acordo com o assunto
principal que determina a cota que lhes é colocada na lombada e são
arrumados na estante com o número de classe atribuído.
Caso existam poucos livros para justificar a atribuição de uma
estante a essa classe, estes são colocados na estante com a
classificação decimal hierarquicamente superior, existente na
Biblioteca.
Exemplo:
550.34 Sismologia
como existem poucos exemplares com esta classificação, poderão
ficar arrumados em:
55 Geologia Se tomarmos uma classe principal, por exemplo, 6 Ciências
Aplicadas. Medicina. Tecnologia. podemos ver como se subdivide:
61 Ciências Médicas.
62 Engenharia. Tecnologia em Geral.
63 Agricultura. Silvicultura. Agronomia. Zootecnia.
64 Ciência Doméstica. Economia Doméstica.
65 Organização e Administração da Indústria, do Comércio e dos
Transportes.
66 Tecnologia Química. Indústrias Químicas.
67 Indústrias e Ofícios Diversos.
68 Indústrias, Artes e Ofícios de Artigos Acabados.
69 Construção Civil. Materiais de Construção. Prática e Processos de
Construção.
A subclasse 62 Engenharia. subdivide-se por sua vez em:
620 Engenharia em Geral. Testes dos Materiais. Energia.
621 Engenharia Mecânica.
622 Engenharia de Minas.
623 Engenharia Naval e Militar.
624 Engenharia Civil e Estruturas em Geral. Infra-estruturas.
Fundações. Construção de Túneis e de Pontes. Superestruturas.
Por exemplo 624 Engenharia Civil divide-se em áreas diferentes que
podem por sua vez ser divididas novamente em áreas ainda mais
especializadas:
624.01 Estruturas e elementos estruturais segundo o
material e o processo de construção.
624.011 Estruturas e materiais de origem orgânica.
624.012 Estruturas de alvenaria.
624.012.45 Estruturas de betão armado.
624.1 Infra-estruturas das construções. Fundações. Construção
de túneis.
624.2/.8 Construção de pontes……….etc.
e assim infinitamente…
Regras Portuguesas de Catalogação
A história da catalogação
Por José Carlos Sottomayor
Na acepção da biblioteconomia,
catalogar um documento significa, fazer
a sua descrição e definir os elementos
necessários e suficientes para a
correcta identificação.
Olhando para a história da
catalogação, podemos dizer que os
catálogos tiveram as suas raízes na Antiguidade. No século XIII em
diferentes mosteiros aparecem catálogos manuscritos dos seus
acervos. Com a rápida evolução na produção dos impressos depois da
invenção de Guttenberg, as bibliotecas cresciam mais depressa e
precisavam de uma organização mais cuidada. Em 1545 o bibliógrafo
e naturalista suíço Konrad Gesner publicou uma bibliografia
organizada alfabeticamente por autores, a qual foi acrescentada 3
anos depois, de um índice de assunto. Este autor pretendeu citar
todas as obras impressas publicadas no mundo. Andrew Maunsell,
livreiro inglês, em 1695 determinou os elementos básicos para a
descrição bibliográfica. A primeira tentativa de elaboração de um
código nacional de catalogação, em que as referências seriam
organizadas em fichas, foi da responsabilidade do governo francês em
1791, o qual publicou as instruções para a organização das
bibliotecas. A primeira sistematização de um moderno corpo de regras
de catalogação foi elaborado em 1840 pelo bibliotecário Anthony
Panizzi, em conjunto com os seus colaboradores do “British Museum”.
Em Portugal
Em Portugal, a primeira tentativa
de estabelecer regras de catalogação
aconteceu em 1819 pelo bibliotecário da
Real Livraria do Convento de Mafra, Frei
João de Santa Ana. O então Chefe da
Divisão dos Serviços Técnicos da
Biblioteca Nacional, Raul Proença, levou a efeito o maior trabalho de
sistematização de umas regras de catalogação portuguesas, as quais
eram constituídas por 840 regras, publicadas em folhas individuais.
Esta corpo de normas teve em consideração as regras publicadas em
1908 pela “American Library Association”, as alemãs “Instruktion” e as
espanholas “Instrucciones”. Raul Proença não teve oportunidade de
completar este trabalho. A publicação dos princípios de catalogação
adoptados na conferência de Paris em 1961 e de outros documentos
internacionais que foram tidos em consideração, levaram em 1972 a
ser elaborado o “Anteprojecto das Regras Portuguesas de
Catalogação”, a que se seguiu em 1975 a edição policopiada do:
“Projecto das Regras Portuguesas de Catalogação”.
Para a redacção do Anteprojecto e do Projecto colaboraram os mais
ilustres bibliotecários portugueses, sendo o trabalho coordenado pelo
distinto e esclarecido Dr. Armando Nobre de Gusmão. Por despachos
em 1982, do então Ministro da Cultura, foi determinada a publicação
das “Regras Portuguesas de Catalogação”e designados para a sua
realização os bibliotecários Armando Nobre de Gusmão, Fernanda
Maria Guedes de Campos e o autor deste artigo. Finalmente em Maio
de 1984 foi publicado o volume das “Regras Portuguesas de
Catalogação”. Havia a intenção, conforme expresso no final do
“Preâmbulo” das Regras, de publicar mais dois volumes. As RPC
estão estruturadas de harmonia com o Anteprojecto e com o Projecto.
Foram tidas em consideração as normas ISBD publicadas pela IFLA
sobre a descrição de monografias e das publicações em série.
O condicionalismo das RPC à estrutura dos anteriores
Anteprojecto e Projecto revelou na sua redacção a vinculação à forma
de catálogos em fichas, o qual se veio a revelar desajustada, passado
poucos anos, face aos formatos normalizados legíveis por sistemas de
gestão informática de biblioteca e, em especial, do formato
bibliográfico Unimarc adoptado em Portugal. Expurgadas desses
aspectos, as RPC continuaram a desempenhar um papel muito
importante para todos os técnicos que necessitam de tratar do ponto
de vista catalográfico os documentos.
O constante aparecimento de novos suportes de documentos,
como por exemplo os documentos electrónicos de acesso remoto,
levou a IFLA a elaborar novas ISBDs e a encetar um processo de
revisão das já existente. Num diálogo constante com a Dra. Fernanda
Maria Campos, foi decidido que eu podia proceder à tradução para
português da ISBD(M), revisão de 2002, e da ISBD(G), revisão de
2004. Estas traduções foram aprovadas pela IFLA e editadas no
primeiro semestre de 2005. A revisão da ISBD(M), a substituição da
ISBD(S) pela ISBD(CR) e a publicação da actualização de 2004 das
“Anglo-American Cataloguing Rules”, 2 edição, revisão de 2002,
mostraram que se tornava necessário proceder a uma alteração da
forma e do conteúdo das Regras Portuguesas de Catalogação.
Ao me deparar com os conceitos em questão, incontinente percorri sua trajetória, ficando muito satisfeito com a linguagem e definições bem fundamentadas, mormente para a revisão de profissionais e/ou interessados em atualizações.
Parabéns.
Comentário por Luiz Silva — Abril 5, 2009 @ 5:35 pm