BIOGRAFIA DE ÁLVARO FEIJÓ

AF

Álvaro Távora de Castro e Sousa Correia Feijó (5 de Junho de 1916 – 9 de Março de 1941) nasceu em Viana do Castelo, segundo o próprio, numa manhã com neblina de bronze sobre o rio. O sol era uma incógnita na bolsa esverdeada do horizonte. Oriundo de uma velha família do norte (filho de Rui de Menezes de Castro Feijó e de D. Maria Luísa Malheiro de Faria e Távora Abreu e Lima) e educado em severos princípios aristrocráticos, embora de acentuada tradição liberal na tão conhecida Casa de Vilar, em Aparecida, no concelho de Lousada, Álvaro parece ter descoberto a poesia contemporânea, unicamente, quando foi estudar Direito para Coimbra.

Desde muito cedo foi estudar para La Guardia, para um Colégio de Jesuítas. Percorrendo os cadernos em que desde os dezoito ou dezanove anos foi metodicamente registando os seus verso, a que deu o título original, com ressaibos românticos, de Desgarradas, verifica-se a influência que sobre ele exerceram os poetas de fim do século XIX: António Feijó (seu tio-avô), Guerra Junqueiro, António Nobre, este mais na tonalidade dorida do que na forma, e com alguma atração, também, pelo torrencialismo de Teixeira de Pascoaes, que, ali perto, em Amarante, não deixaria de envolver na sua sombra gigantesca os tentames do ainda jovem poeta.

Terá sido em Coimbra que toma conhecimento do movimento da Presença. Leu Fernando Pessoa, contactou com Afonso Duarte, inspirou-se em Capitães da areia, de Jorge Amado. A partir de 1938 a sua poesia  começa a transformar-se. Os versos cedem, o confessionalismo acentua-se para dar lugar a um humanismo prático e direto. Também os acontecimentos históricos agem decisivamente sobre o poeta: os fascismos europeus, as ameaças de guerra e o conflito espanhol que tanta importância teve na formação mental da geração literária a que pertenceu com outros colegas e amigos. Fundou o grupo de poetas do «Novo Cancioneiro», de tendências neo-realistas, de que faziam parte José João Cochofel,  Fernando Namora, Manuel da Fonseca, Carlos de Oliveira, Mário Dionísio, entre outros.

Foi um poeta moderno de origem antiga, reconhecível no seu pendor discursivo e exclamativo. Interessante é observar-se o uso tão peculiar que o poeta faz dos temas religiosos, particularmente em Ave Maria, Prece, Nossa Senhora da Apresentação e Natal. Dá-se nessas poesias uma inversão do significado tradicional dos mitos: vergados ao chão duro e contraditório em que os homens existem  e trabalham, com os seus meandros psíquicos, com os seus contrastes violentos, com as ficções que os mascaram. A ironia controversa é transparente e testemunha bem das preocupações sociais do Álvaro Feijó. Para ele, a salvação do mundo operar-se-ia pela via da ação social.

Mas as preocupações sociais não o impediram de cantar o amor, aparentemente gratuito, das coisas e da natureza. A sua obra poética, imbuída de um erotismo juvenil e de simbologias viradas para antigas vivências assume características revolucionárias, tendo sido publicada em revistas como: “Sol Nascente”, “O Diabo”, “Altitude” e “Seara Nova” e, postumamente, no “Novo Cancioneiro“.

Toda a sua poesia poisa sobre as coisas um olhar transfigurador e a sua lírica está cheia de imagens, metáforas, alusões subentendidas, pequenas notas de uma visão apurada. A teoria dos sortilégios que só o poeta sabe ver. O Mar absoluto, com maiúscula, herdado do Simbolismo e do Saudosismo, o mar como fonte de inspiração ou alusão metafórica, como estava em voga naquele tempo, mas a tão viva e quotidiana presença do mar e das populações ribeirinhas a ele ligadas.

Em 1940, impedido de concretizar o curso de Direito, em Coimbra, abateu-se sobre ele uma doença implacável que o vitimou um ano depois: a tuberculose.

In memoriam

Álvaro Feijó soube cantar e conseguiu abrir-nos, a nós leitores, os olhos sobre o nosso mundo, porque cantou a rua, a fome, o sofrimento. Fazendo alusão ao que seu irmão Rui Feijó escreveu na edição de Os Poemas de Álvaro Feijó, Evoramons Editores e herdeiros de Álvaro Feijó, em junho de 2005:

Lembro-me da alegria que ele teve quando saiu a primeira edição do Corsário e daquilo que escreveu no primeiro exemplar, que conservo, e que era todo um programa de futuro” (…) “Qual seria hoje a sua alegria se pudesse saber que a sua poesia permanece no imaginário de várias gerações, que figura em todas as antologias responsáveis da poesia do tempo em que viveu e que continua a ser editado”.

Em memória de Álvaro Feijó, a equipa da biblioteca deste Agrupamento de Escolas de Lousada, não quer desistir de recordar o poeta e, em sua memória, preservar nas gerações vindouras do concelho, o canto da sua poesia original e dramaticamente interrompida (com apenas vinte e quatro anos de idade). Fica desde já aqui lançado o repto, em jeito de lembrete, nomeadamente aos agentes culturais de Lousada, de que em 2016 se comemora o centenário do seu nascimento.

Como afirma o vianense, Porfírio Silva (Miranda Rebôlo), Animador Cultural na Biblioteca Pública Municipal de Viana do Castelo no seu blogue intitulado Muxicongo: http://muxicongo.blogspot.pt/2013/03/recordar-alvaro-feijo-no-72-aniversario.html: 

Em memória de Álvaro Feijó, continuaremos a contar estrelas, ainda que elas morram, à medida que as contamos…

 

Texto elaborado a partir da introdução de João José Cochofel, em Poemas de Álvaro Feijó, © Evoramons Editores e herdeiros de Álvaro Feijó, em junho de 2005


Obras poéticas: Corsário (1941) e Os Poemas de Álvaro Feijó (1941)

Pagela de Álvaro FeijóReprodução da pagela das cerimónias fúnebres do poeta Álvaro Feijó


 Alguns poemas:

CANÇÃO DO PÂNTANO

Eu trago imundície
à superfície
e um coração dentro de mim.

Não querem ver-se em meu espelho negro
à noite as estrelas,
que o meu espelho perfura as almas
e mostra toda a vacuidade delas.
Os peixes não deslizam na água negra
onde melhor poderiam ocultar-se.
Ninguém me vem beber da água fétida,
nem banhar-se
no lodo das minhas margens.

No lago, à minha beira,
andam os cisnes
mudos, na adoração do azul,
e os peixes
na estupidez
dos arabescos que traçam entre as águas.

No lago, à minha beira,
andam ondinas
banhando-se
ao luar
a nudez complicada…

No lago, à minha beira,
que é cenário
e que não tem
coração, alma, nem nada.

Primeiros versos
1940


EU TIVE UM PÁSSARO DE PRATA

Eu tive um pássaro de prata…
Seguia rotas sem fim
– sem dar conta das horas, das distâncias –
para longe de mim.
Um dia veio a tempestade…
O pássaro quebrou as suas asas de prata
e capotou!
Sofri!
Eu sei lá se sofri,
vendo no chão toda a engrenagem
que a moldara
e a fuselagem
deselegante, como uma lesma, indiferente, ao sol.
E nem assim
deixou de erguer-se ao céu o pássaro de prata
tentando novas rotas,
voando sempre, e só, para dentro de mim…

Primeiros versos
Janeiro de 1940.

 


DIÁRIO DE BORDO

Letra a letra,
hora a hora,
linha a linha,
marquei no Diário de Bordo
as fases da viagem.

Dias e dias no embalar das vagas,
sem que um bafo de brisa poluísse
o abandono tentador das velas;
expedições forçadas, abordagens;
fome e sede de carne, nos jejuns
de cem dias de Mar;
velhos contos de bordo, em noites podres,
sem lua e sem estrelas;
o escorbuto na alma, apodrecida
à espera dos combates;
os rateios da presa recolhida
e, ao fim,
a Ilha dos Amores de qualquer porto
onde as mulheres se vendem.
E tudo foi, profundamente, inútil.

Livro de Bordo de Corsário, deixa
que o tempo apague a tua prosa inútil
e escreve a história imensa
daquela frota em que tu vais partir
– como pobre navio auxiliar –
à demanda e à conquista
do Novo Continente!

Corsário
(1941)

 


DO ALTO MAR

Tripulação!
às gáveas e às enxárcias;
ao leme e aos cordames;
atenta à tempestade
que anda no Mar
e vai
no nosso coração.

Tripulação!
Ajuda a tempestade…
Deixa ruir o mastro da mesena!
Lança à boca das ondas o sextante!
Deixa ao sabor das vagas o navio!
Não tenhas pena!

Quando haja só convés ao raso de água:
Tripulação…
Atenta.

Primeiros versos
(1939)


 PARÁBOLA

Contei estrelas,

e elas

morriam, à medida que as contava.

E a escuridão nasceu.

Mas fiz estrelas

e pendurei-as

na escuridão da abóbada.

Fiquei nimbado de luz,

mas a Terra era negra à minha roda…

Álvaro Feijó
Corsário (1940)

in Os Poemas de Álvaro Feijó

© Evoramons Editores e herdeiros de Álvaro Feijó

   Para saberes mais sobre o autor vê »»»»» aqui.

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